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Histórias de amor duram quanto mesmo?

29/03/2010

>>> postado originalmente em Saraiva Conteúdo.

Por Bruno Dorigatti
Foto de Tomás Rangel

> Assista à entrevista exclusiva de Caio Blat e Maria Ribeiro ao SaraivaConteúdo

Um escritor na altura dos seus 30 anos, desempregado e sem fazer nada da vida, vivendo do dinheiro que a mãe, falecida, deixou para ele, sofre de bloqueio criativo e não consegue seguir adiante com o seu livro. Bem casado, Zeca vive com Julia, professora que faz mestrado e leva a vida mais a sério. A história começa quando uma terceira pessoa se envolve com o casal, mas, o que poderia ser mais um filme clichê sobre triângulos amorosos e uma comédia romântica, na verdade, mostra de maneira particular os relacionamentos neste início de século, além de abordar o niilismo e a falta de desejos e atitudes da geração que procura adiar a entrada no mundo dos adultos.

Histórias de amor duram apenas 90 minutos é a estréia de Paulo Halm, roteirista conhecido por filmes como Guerra de CanudosPequeno Dicionário AmorosoDois perdidos numa noite suja. “Pelo que conta a sinopse, parece uma comédia romântica. Mas é apenas aparência. Disfarçado de comédia romântica, o filme trata de uma geração de pessoas talentosas que não conseguem decolar. Este fenômeno é bem comum na classe média aqui no Brasil. Pessoas inteligentes, sensíveis, e que, no entanto, se sabotam, se enrolam, ficam eternamente promissores, incapazes de realizar seus sonhos, seus projetos. São escritores que não publicam, cineastas que não filmam, promessas que não se cumprem”, diz Halm em entrevista ao site do filme. No longa, o casal é interpretado por outro casal que também está por volta dos 30 anos, Caio Blat e Maria Ribeiro. A terceira pessoa é a atriz argentina Luz Cipriota, que interpreta Carol, uma caliente portenha que mora em Santa Teresa, próximo à Lapa carioca, reduto do casal e por onde se desenrola o enredo.

“Recebi o roteiro do Paulo Halm, já o conhecia como um grande roteirista. É sua estréia como diretor, e adorei o título, Histórias de amor duram apenas 90 minutos. Comecei a ler e fiquei fascinado com o roteiro, é uma historia totalmente contemporânea, fala de relacionamentos, desejos de uma forma atual, sensual, engraçada, inteligente”, conta Caio Blat em entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo.

“No dia seguinte, falei com o Paulo que tinha adorado o roteiro. Só que é um casal que se envolve com uma terceira pessoa. E sugeri fazer com a Maria [Ribeiro, sua mulher], já que é um casal. O personagem tem tudo a ver com a gente no físico. São totalmente diferentes da gente, mas poderiam ser nossos amigos, pessoas conhecidas, nem tão distantes assim”, continua o ator, que participou de longas como Lavoura ArcaicaCarandiruBatismo de sangueO ano em que meus pais saíram de férias, mas também vem atuando em filmes mais independentes, como Cama de gato, Baixio das Bestas Os inquilinos.

Segundo Caio, a idéia do diretor era essa, chamar o casal, só não sabia como convidar os dois. “Aí a Maria leu o roteiro e adorou também. Ou não?”, indaga Caio. “Adorei, achei que era um filme diferente do que tem sido feito. Ele fala de pessoas de 30 anos, que têm essa coisa do não amadurecimento, ao mesmo tempo em que não trata os jovens de maneira idiota. Tem a pessoa de 30 anos empreendedora, e outra, também na faixa dos 30, que fica em casa o dia inteiro. O filme fala dessa geração e, ao mesmo tempo, é leve, fala de um Rio de Janeiro diferente. Achei encantadora a idéia de falar de coisas próximas, o que não vemos muito. Ficamos com vontade de ver esse filme, quando lemos o roteiro”, afirma Maria Ribeiro, que fez a mulher do Capitão Nascimento em Tropa de Elite e atualmente filma a seqüência do filme de José Padilha. Ela estreou na direção no ano passado, com o documentário intimista Domingos, sobre o dramaturgo e diretor Domingos de Oliveira, com que já trabalhou algumas vezes.

Os relacionamentos contemporâneos são abordados de maneira sensível e plausível, com um olhar focado bem próximo do desenrolar das situações, seja nos diálogos, na relação de Zeca com o pai, nas festas regadas a maconha e cocaína, numa liberdade maior em relação à sexualidade. Zeca, o pretenso escritor, empaca numa história que envolve um açougueiro que decide se tornar fotógrafo e faz ensaios sensuais com mulheres em seu ambiente de trabalho. Até que elas começam a aparecer mortas e esquartejadas no açougue. O principal suspeito é o fotógrafo/açougueiro, mas… Aí é que a história a la Rubem Fonseca empaca. O escritor inclusive é citado no filme, quando, em uma festa, uma personagem acusa Zeca de imitá-lo – assim como fez boa parte da geração de escritores surgida nos anos 1990 –, o que ele nega veementemente. Esse bloqueio criativo, junto com o desapego crescente do casal, além do aparecimento de Carol, movem o filme.

O filme de Halm procura subverter um pouco os clichês dos filmes que envolvem triângulos amorosos, e promete situações que acabam por não se cumprir. O casal chegou a participar dessas escolhas? “O roteiro estava bastante pronto, o que fizemos foi dar textura para ele”, recorda Caio. “Colocamos muita sujeira, tornamos o roteiro quase um filme de documentário através das falas do casal, como ‘Me dá meu óculos’, ‘Cê tem dinheiro?’, ‘Onde que ele pôs a carteira?’, ‘Cê num comprou água!’. Essa textura cotidiana, sujamos bastante”, completa. Sobre Zeca, ele gostou de interpretá-lo: “Meu personagem é saborosíssimo, porque é um cara que vive na frustração, na contra vontade, tudo para ele dá errado. Quanto mais ele sofre, mais quebra a cara, mais engraçado o filme fica”.

Com as semelhanças de idade, de cidade, de serem ambos, personagens e atores, de classe média, como fica para interpretar? “A dificuldade é compor um personagem, porque se é uma pessoa que mora na mesma cidade que eu, se veste como eu me visto, como vou fazer um personagem que não seja eu? É um desafio, porque, quanto mais distante de você, acho mais fácil de fazer uma composição. Facilidade, principalmente, foi contracenar com o Caio. Porque temos intimidade e, ao fazer um filme, você tenta estar próximo do ator ou da atriz, para que a pessoa seja banal, no bom sentido. O filme ganhou com isso”, acredita Maria.

Para Caio, “o filme retrata nossa geração, mostra como estão hoje os desejos, frustrações e expectativas. Ele tem certo sintoma dessa geração, um desinteresse geral, uma desilusão, talvez, com a política, as formas de mobilização social. Até a revolução sexual, a mudança do papel da mulher, casamentos abertos, o desbunde que teve nos anos 1970 e 1980. Depois veio a AIDS e encaretou tudo de novo”.

“Ninguém mais acha que vai mudar o mundo”, acrescenta Maria, que continua: “Tenho a sensação que, antigamente, com 20 anos, as pessoas queriam mudar o mundo. E hoje, com essa idade, já estão pensando em mercado de trabalho, que é uma coisa um pouco triste”.

A pergunta que o filme levanta é curiosa. Quanto tempo dura uma história de amor? É o tempo de um filme? Maria arrisca uma resposta: “Ao mesmo tempo, é uma brincadeira com os manuais de roteiro. Quando você vai fazer roteiro, tem aquelas coisas clássicas. O herói, com meia hora de filme, tem que passar por um revés etc. E comédia romântica tem que ter uma hora e meia. Acho que tem essa piada interna, que é legal”.

“Ah, eu já achava que era o tempo de um jogo de futebol, primeiro tempo, segundo tempo, hahaha”, retruca Caio. O casal atuou como produtor executivo de Histórias de amor… Por que a opção? “De uns tempos para cá, tenho me envolvido cada vez mais em todas as etapas do processo do filme. E tenho me sentido cada vez mais a vontade para me envolver em tudo. E como também a gente nunca ganha o quanto gostaria, uma das formas é se tornar sócio do filme, e ter essa proteção, esse direito de interferir mais”, explica.

Além disso, a exposição do casal, que interpreta (ou vive…) cenas de sexo no filme, foi um motivo a mais para procurar resguardar a intimidade dos dois. “Num filme como esse, onde estaríamos bastante expostos, a gente queria se sentir maximamente protegido. Então nossa participação, desde mexer nesses diálogos, na sujeira do roteiro, até trazer amigos para equipe, como o maquiador que temos confiança total, ir ao Caetano pedir uma música para a trilha. São formas que temos de ajudar, contribuir para o filme e, ao mesmo tempo se proteger, poder dar palpites na montagem, sugerir cenas com plano mais escuro, diminuir seqüências”, conta o ator.

“É uma forma de poder interferir, de estar mais a vontade para interferir e ser sócio mesmo, em todos os sentidos, do filme, inclusive no lançamento, na distribuição. De uns tempos para cá, cada vez mais tenho me metido muito nos filmes e discutido desde o roteiro até a montagem”, acrescenta Caio. Já Maria resume: “É o direito de encher o saco de um diretor”.

E como é atuar com a própria mulher? “O tempo inteiro, achávamos que tinha que se tomar cuidado com a luz, a música, a fotografia, o cenário. E, na verdade, foi um susto quando a gente chegou ao set, porque o material de que trata o filme é muito delicado. A gente é um casal, estamos superfelizes e, no filme, tínhamos que fazer um casal em desamor, que vive um momento de desencontro, desatenção. As situações que Zeca e Julia vivem no filme não são nada fáceis de lidar. O mais complicado foi entrar nesse clima de ciúmes e desconfiança”, revela o ator. “Teve o lado bom também, você beijou uma louraça, sensacional…”, se diverte Maria. “Claro, teve um lado onde todas as fantasias, através do filme, a gente pôde realizar, hahaha”, ri Caio junto com a mulher. “Eu beijei também uma louraça, sensacional…”, retruca a atriz.

“Hahaha. Mas até fazer cena de sexo é extremamente constrangedor. Você vai beijar a sua mulher diante da câmera, da equipe. Mas você vai dar um beijo técnico? É uma personagem ou a sua mulher? Existe uma mistura, uma coisa meio constrangedora, uma verdade que, de alguma maneira, está sendo mostrada, vendida. É delicado”, pondera o ator, que acabou de rodar o novo filme de Laís Bodansky.

“Tivemos que nos adaptar aos reality shows. Vender a nossa intimidade. Mas tudo bem, a gente se divertiu também”, finaliza Maria Ribeiro. O que foi divertido? “A parte divertida é brincar de brigar, e ter uma terceira pessoa, que é uma coisa que a gente não faz na nossa vida”, esclarece. Paulo Halm consegue nos fazer rir, além de refletir sobre um momento novo que vem vivendo a juventude brasileira de classe média, sobretudo nas grandes cidades, e de mexer com a fantasia de muita gente.

> Assista à entrevista exclusiva de Caio Blat e Maria Ribeiro ao SaraivaConteúdo

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