Vale a pena ver (e ver de novo!): Histórias de amor duram apenas 90 minutos
Puxa! Salve os motores de pesquisa! Vejam que texto jóia publicou a Renata Corrêa ontem em seu blog Vale ou Não Vale? – Quando a alma não é pequena. Só um observação antes de deixá-los com o texto da Renata: ainda ontem falávamos aqui no blog do quão curioso é essa coisa da múltipla composição da história e dos personagens, essas releituras tão plurais. Que bom encontrar mais esta colaboração da Renata. Valeu pela indicação, Renata! ;-)
Vale a pena ver: Histórias de amor duram apenas 90 minutos
O cinema brasileiro – e aqui não falo só dos realizadores, falo do público e também da crítica, esse tripé de desejos e gostos insondáveis - vive uma terrível síndrome de cachorro vira-lata, incensando muitos filmes abaixo da média por supostas qualidades técnicas e deixando passar em branco grandes e pequenos filmes que aparecem por aí, de cinematografia sólida e bem construída.
Será esse o caso de Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos, filme do diretor de longas estreante e roteirista mais que experiente Paulo Halm? Espero que não. O filme é comovente e divertido, em doses equilibradas e cheio de curvas dramáticas que surpreendem o cara que está sentadinho na poltrona do cinema.
Zeca, um jovem supostamente talentoso interpretado por Caio Blat narra a sua vida com um certo distanciamento, como se ele próprio e seus problemas fossem matéria ficcional. Mas isso tem uma explicação: a beira dos 30, Zeca está empacado na página vinte do seu romance de estréia e não escreve sequer uma linha. Representando a famosa geração y, que não eclode, implode ou explode, o rapaz vai ficcionalizando sua vida, fantasiando um possível caso homoerótico da sua madura namorada com uma aluna argentina.
O que movimenta a vida de Zeca não é o que acontece e sim o que ele imagina acontecer, e na sua incapacidade de produzir ficção de verdade ele vai desenrolando a sua história como um mega narrador às vezes histérico, às vezes deprimido, o personagem compara suas dúvidas existenciais com autores e chega a comparar Júlia, sua mulher, com um personagem do cinema francês. Ao fazer isso o dublê de escritor escreve, mas escreve a vida como deveria ser, e não como ela é de fato. Ele é é um narrador que não faz a menor idéia de sua condição real, do que é palpável na sua existência: sua relação com o pai, com a arte e com sua mulher.
O romance que Zeca inventa e que movimenta parte da trama trás a parte bem humorada do filme. A participação de Hugo Carvana não é apenas afetiva: é um dado da influência no filme desse humor tipicamente carioca e debochado que tantalizou cinemas nas décadas passadas, como “a virgem camuflada” e “se segura malandro”, do prório Carvana. O Romance que dura apenas 90 Minutos não é o de Zeca com sua mulher ou de Zeca com sua paixão indefinível pela argentina “acariocada” Luz. É a escritura que ele compõe ao se relacionar de forma transversal com os acontecimentos, sem encará-los de frente. Um livro sem páginas que poderia se chamar: A vida de Zeca, segundo Zeca e sem Zeca.
Passeando entre a nouvelle vague do personagem caminhante, e pela comédia erótica de tradição italiana tipicamente brasileira, Paulo Halm faz um filme de fôlego, que não se arvora de pretensa seriedade para discutir as agruras da geração dos jovens adultos nascidos na década de 80, mas ainda sim, com algum escracho calculado (como na impagável cena do “brinquedinho”) é profundo e lança questões importantes, diluídas entre a compaixão e o ridículo do protagonista. Veredicto: vale. ![]()


Curti cada momento do filme. Gostaria muito de receber o texto que é citado na abertura. Obrigada!